Entre a folia e a luta: como o carnaval de SP virou território de existência LGBTQIA+
Sociólogo Vinicius Ribeiro Alvarez Teixeira, autor do livro 'Arco-íris brilha com glitter: livro investiga ativismos LGBTQIA+ no carnaval de rua de São Paulo...
Sociólogo Vinicius Ribeiro Alvarez Teixeira, autor do livro 'Arco-íris brilha com glitter: livro investiga ativismos LGBTQIA+ no carnaval de rua de São Paulo' Marcos Credie “Parece só uma festa, mas o fervo também é luta.” É assim que o sociólogo Vinicius Ribeiro Alvarez Teixeira resume o carnaval de rua em São Paulo — tema do seu novo livro "Arco-íris brilha com glitter: livro ativismos LGBTQIA+ no carnaval de rua de São Paulo". A obra será lançada neste sábado (31) na Ocupação Fervo, na Água Branca, Zona Oeste da capital, a partir das 16h. O evento será em formato de festa, com apresentação do Bloco Abacaxi de Irará, além de bate-papo com o autor e sessão de autógrafos. Em entrevista ao g1, Teixeira explica que o objetivo do livro — que nasceu de uma pesquisa de doutorado na USP — é mostrar como coletivos e pessoas LGBTQIA+ ocupam as ruas, constroem visibilidade e resistem ao preconceito por meio da música, da festa e dos corpos diversos durante o carnaval paulistano. Participar de um bloco LGBTQIA+ significa pertencer e dar visibilidade à diversidade de gênero e sexual, além de resistir à homofobia, à transfobia e ao machismo. A minha pesquisa me leva a compreender o carnaval como a festa feminina popular de raízes africanas, homossexual, transgênera e queer de uma sociedade estruturalmente machista, patriarcal, erotista, racista e homotransfóbica. LEIA TAMBÉM: Nunes diz que blocos de Carnaval devem buscar patrocínio: 'Ficar acomodado, querendo tudo do governo, não é por aí' 627 blocos de rua, 30 mil banheiros químicos e 158 pontos de hidratação: veja os números do Carnaval de SP 'Manual de sobrevivência' do carnaval em SP: veja dicas de segurança e saúde durante a folia Blocos fazem ensaios e shows pra afinar detalhes e fazer caixa para o carnaval de rua de SP Para o pesquisador, o crescimento dos blocos de rua em São Paulo está diretamente ligado ao contexto político que se intensificou no país a partir de 2013 com as Jornadas de Junho. Segundo ele, aquele período foi marcado por uma forte efervescência e pelo surgimento de novas formas de organização coletiva, menos hierárquicas e mais horizontais. “A ideia de coletivo estava muito em voga. Eram organizações mais transversais, que rompiam um pouco com a lógica hierárquica de partidos políticos e movimentos sociais tradicionais. O bloco de carnaval vira uma dessas maneiras de organização”, afirma. Essa presença nas ruas, explica Teixeira, também carrega um sentido de pertencimento. Para ele, quando pessoas LGBTQIA+ se reúnem em blocos, não estão apenas celebrando, mas afirmando o direito de existir na cidade — similar ao que acontece na Parada do Orgulho LGBT+. Expressão da identidade O carnaval de rua também é um momento de expressão, em especial para a comunidade LGBTQIA+, aponta Teixeira. “Eu acho que ninguém fica fora do arco-íris na rua. O carnaval é um momento privilegiado de expressão de todas as letras, de toda a diversidade de identidade de gênero e orientação sexual”, diz. Para ele, a festa abre brechas para experimentar formas de ser que, muitas vezes, não encontram espaço no cotidiano. Uma das pessoas entrevistadas na pesquisa, por exemplo, contou ter começado a entender que era não binária justamente durante o carnaval, ao brincar com roupas e expressões de gênero. 🔎 Não binário é alguém que não se encaixa exclusivamente no que se compreende como "homem" ou "mulher". “A possibilidade de se expressar de outras maneiras, que o cotidiano não nos permite, faz com que a gente explore um pouco das nossas identidades”, explica. O mesmo vale para o desejo. “A gente também pode pensar nas possibilidades de desejo que aparecem ali.” Apesar do ambiente de celebração e mais visibilidade, Teixeira ressalta que a festa não elimina as violências estruturais. Ele observa que pessoas LGBTQIA+, especialmente mulheres trans, seguem mais vulneráveis, inclusive durante o carnaval. Livro 'Arco-íris brilha com glitter: livro investiga ativismos LGBTQIA+ no carnaval de rua de São Paulo' do sociólogo Vinicius Ribeiro Alvarez Teixeira. Reprodução Teixeira também fala a partir da própria vivência. Ele conta que vem de uma família que sempre gostou de carnaval e que os pais se conheceram, justamente, em uma terça-feira de folia, no Rio de Janeiro. Apesar dessa relação antiga com a festa, ele diz que demorou a se aproximar do carnaval de rua paulistano. “Eu fugia do carnaval de São Paulo”, afirma. Isso mudou em 2018, quando passou a frequentar blocos na capital — experiência que, mais tarde, se transformaria também em objeto de pesquisa. Como homem gay cis, ele relata que o carnaval foi, durante muito tempo, um dos poucos momentos em que se sentia mais seguro para demonstrar afeto em público. “Eu me sentia mais seguro beijando outros homens na rua durante o carnaval do que em outros momentos do ano”, conta. 🔎 Uma pessoa cis (ou cisgênera) é aquela cuja identidade de gênero corresponde ao sexo que lhe foi atribuído no nascimento. Por exemplo, uma pessoa que nasceu com sexo biológico masculino e se identifica como homem. Essa vivência pessoal atravessa o trabalho acadêmico e ajuda a explicar o olhar do autor, que vê a festa não só como celebração, mas como um espaço onde visibilidade, pertencimento e existência se tornam atos políticos. SERVIÇO: 📅 Quando? Sábado (31), a partir das 16h 📍 Onde? Ocupação Fervo — Rua Carijós, 248 - Água Branca, Zona Oeste